O Que Aconteceu Depois Do Felizes Para Sempre?

Contos De Fada Com Finais Felizes

Desde o berço que somos enganados. Sim, isso mesmo, enganados. Somos levados a acreditar em Contos De Fada Com Finais Felizes. As nossas ambições para o futuro seguem logo um modelo. Um modelo de vida preestabelecido. A nossa opinião começa logo a ser formada.

Diz-nos a tradição popular (numa total irrealidade e desprovimento de noção do mundo), que tudo acaba bem. Um delírio digno de preocupação. De nada vale defendermos esta ideia, pois certamente saberemos cedo na vida, que afinal não é bem assim. E começam as desilusões logo nas cabecinhas cruas das crianças.


Contos De Fada Com Finais Felizes – A Perfeição A Alcançar

As estórias que nos foram contadas desde tenra idade eram perfeitas. Todas tinham finais felizes. Todas envolviam uma história de amor. Todas tinham dificuldades que eram sempre ultrapassadas. Fizeram-nos acreditar que havia de facto um corredor que se seguia para chegar comodamente ao tal final feliz. As princesas têm de se portar bem, e/ou ser heroínas, ser lindas e extremamente simpáticas e educadas. Os príncipes também devem ser lindos, corajosos e apaixonados. O peso sociológico destas estórias é muito desvalorizado… E é peso suficiente para dedicar algum tempo a refletir sobre ele. Os Contos De Fada Com Finais Felizes moldaram, de certa forma, todo o nosso pensamento.

Há toda uma notável simbologia por detrás dos Contos De Fada Com Finais Felizes. E há, para além disso, toda uma aprendizagem implícita – o desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança. O desenvolvimento da imaginação, emoções, valores e sentimentos de forma lúdica e significativa. A organização dos seus sentimentos e a construção do desenvolvimento moral e social. Os Contos De Fada Com Finais Felizes fomentam o crescimento cognitivo e afetivo da criança. E são importantes ferramentas transformadoras na personalidade da criança.

Sim, efetivamente, os Contos De Fada Com Finais Felizes têm benefícios, não só os enunciados, mas muitos outros.


Contos Impregnados Em Padrões Sociais

Interessa-me particularmente falar sobre o tal peso sociológico. Sobre as consequências sociais e humanas destes contos impregnados em padrões sociais. Sim, estas estórias para crianças, que bebemos desde o nascimento, são manifestamente ricas em normas e preconceitos. Falo um pouco deste tema aqui Ser Inconveniente, para quem quiser ler. Toda a mentalidade dos Contos De Fada Com Finais Felizes empurra-nos para um molde já instituído. Aquele em que as meninas crescem unicamente para saber tratar da casa e dos outros. Lindas (porque se forem feias é sinal que são más meninas e não terão o tal final feliz), passam as primeiras décadas das suas vidas, a aprenderem a ser donas de casa exímias.


O Que Aconteceu Depois Do Felizes Para Sempre?

Terão namorados e serão esposas no futuro. Esposas do seu príncipe encantado, também ele lindo (porque é corajoso e com valores socias, altruísta, generoso) … Um par perfeito que, obviamente, terão filhos perfeitos, numa casa enorme e perfeita, com vidas perfeitas. A máxima da felicidade. Amar-se-ão até que a morte os separe. Mesmo que seja depois dos 100 anos de vida. Mas isso fica na imaginação de cada um porque as estórias não o referem (Imagem de destaque “O que aconteceu depois do felizes para sempre” de Dina Goldstain).

E a esposa? Sempre feliz a cantarolar, viverá para a família, mesmo com 10 filhos e um enorme palácio para gerir, limpar, arrumar, cozinhar, tratar de roupas e todas as outras tarefas associadas às donas de casa! Se isto não é coragem… E saúde! E onde irá ela arranjar tempo? Dormirá porventura??


Amor Verdadeiro Há Só Um Na Vida Inteira?

A mentalidade social mudou um bocadinho (gigante) desde a criação destes Contos De Fada Com Finais Felizes. Precisamos de atualização, de um refresh.

Eu não quero ficção no subconsciente da minha filha! Quero que ela se sinta livre para preferir o sapo bem-falante ao príncipe ignorante! E nem nunca apreciei particularmente que lhe perguntem se tem namorado! A criança tinha 3 anos e já lhe perguntavam quem era o namorado! Como?? Será que pretendem passar-lhe a ideia de que se vive para ter um namorado? Que não pode sobreviver por ela, sozinha se ela assim o entender? Que é uma incapaz se não tiver um homem que trate dela? Ou se calhar uma infeliz se não ter namorado for a opção dela. Que não pode sentir amor por alguém do mesmo sexo? Ou que, por exemplo, só pode ter um príncipe na vida! Se a coisa correr mal fica consequentemente sem ficha para mais uma volta.

E tudo pela simples razão de que amor verdadeiro há apenas um na vida inteira (será válido para quem viva mais de 100 anos? depois dessa idade podia voltar-se à casa de partida, não?).


Mudar Mentalidades É Competência Nossa

Quando falo na minha filha, falo de muitas crianças que merecem igualmente, crescer sem tabus ou sem objetivos de vida traçados. Crianças realmente e verdadeiramente livres de amarras, sociais ou físicas. Livres para escolher, para ser quem são e quem pretendem ser. Não, não pretendo que a minha filha seja princesa dos Contos De Fada Com Finais Felizes. O meu sonho para ela está por definir, a aguardar que ela me mostre o que fará da sua vida. Apenas quero uma coisa. Que ela seja feliz. Com namorado, casada, descasada, sozinha,… O que a fizer feliz para mim é definitivamente o Conto De Fada Com Final Feliz.

E vocês? Que final feliz pretendem para os vossos filhos ou para quem amam? Um final imposto por uma sociedade desatualizada ou a felicidade que cada um pretende construir? Que sejam ricos em alegria e prazer no trabalho que fazem, ou que tenham de exercer o que a sociedade designa? E que vida querem para vocês? Um trabalho enfadonho para o qual vivem, sem interferência de qualquer outra ocupação ou pessoas? Ou pretendem experienciar a vida com todos os seus momentos bons e menos bons?

E se cada um de nós escolhesse o nosso próprio Conto De Fada Com Final Feliz?

Comments

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  2. Andreia Morais

    Acredito que precisamos destes contos de fadas para equilibrar o choque de realidade que recebemos todos os dias. Porém, também precisamos de assentar bem os pés e perceber que nem sempre há finais felizes e que não é tudo encantado e maravilhoso

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      Minorka

      E que nem toda a gente nasce para ter um companheiro/a desde os 3 anos de idade… E tantas vezes ainda estão na barriga e já se combinam casamentos. Parece que só isso interessa.
      Beijinhos!

  3. Claudia - Mulher XL

    É como dizes no final… Cada um de nós faz o seu próprio conto de fadas! 🙂

    Ainda assim acho que a “geração disney” (a minha) não ficou muito afectada… Apesar dos finais felizes e todas as ideias pré-concebidas, vê-se que a geração Millenial já não embarca nessa história de casar e ter filhos lindos numa casa linda e serem donas de casa e “felizes para sempre”! 😛

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