Perpetuando A Indústria Da Morte

Fascínio pelo mórbido

Se há coisa que me causa alguma repulsa, é o Fascínio Pelo Mórbido. Os meios de comunicação estão constantemente a bombardear-nos com acidentes, mortes, feridos, tragédias de todo o tipo. E as pessoas gostam, adoram. Onde foi? Como? Quem fez o quê? Quem eram as pessoas envolvidas? Que faziam elas, onde moravam… Tudo vira intensamente importante, desde que haja mortes envolvidas.

A curiosidade mórbida, eu até consigo compreender. Afinal ser curioso é intrínseco ao ser pensante. Parece-me natural que haja vontade de entender a morte, é um acontecimento envolto em mistério e medo. Consigo, portanto, conceber a curiosidade das pessoas sobre a morte. Uma curiosidade saudável, que não invada a privacidade do outro (mesmo na morte). Uma curiosidade aceitável, que não seja passível de ser confundida com cusquice dos apaixonados pela vida alheia. Já o Fascínio Pelo Mórbido, é fenómeno digno de estudo. Impressiona como a morte pode ser tão atrativa para as pessoas (com especial ênfase sobre as donas de mentes tacanhas).


Fascínio Pelo Mórbido – O Mediatismo

Todos sabemos que quando vamos no trânsito e começamos a abrandar, das duas uma, ou há acidente e não se pode passar, ou já houve e os curiosos amontoaram para observar. E examinam cuidadosamente todo o cenário (se houver mortos e feridos graves, interessa mais), para construírem mentalmente uma hipótese que tornam automaticamente em verdadeira. Posteriormente repetem a (sua) estória com um brilho nos olhos, tal qual um realizador de cinema ao ver o seu filme nomeado para os Óscares.

A tragédia, neste caso a morte, vende. (Quem esquece deste episódio macabro da Judite?) Mortes públicas sempre foram muito mediatizadas. E não apenas pelos meios de comunicação social, pelo real, mas também pela Arte. Poesia, teatro, cinema, artes plásticas, música… As tragédias trazem ao de cima o Fascínio Pelo Mórbido das pessoas. A relação destas pessoas com a morte é algo de muito estranho.


Qual a Natureza do Ser Humano?

O Fascínio Pelo Mórbido é observável em comportamentos mais ou menos padronizados. Muito próximos das atitudes da bisbilhotice, zarelhar e difundir boatos, por exemplo. Comportamentos onde o pior do ser humano se mostra, desde o mesquinho à ignorância, passando pelo julgador. Durante muitos anos estive convicta de que a natureza do ser humano é bondosa, ponderada, regida pelo amor em todas as suas formas. Hoje tenho dúvidas de que assim seja. Falam-se em grandes desgraças locais e mundiais, ficamos todos preocupados, mas mudamos alguma coisa? Muito pouco. Há exemplos que comprovam que a minha primeira convicção estava certa, mas a verdade é que são mais, maiores e piores os exemplos que a contradizem.


Indústria Da Morte

Chego a pensar se não estaremos todos presos a uma indústria da morte. Efetivamente é a indústria mais divulgada e mais procurada, chegando a ser macabra tal conduta. Se a população souber de algo trágico, vai imediatamente ao local, ou procurar imagens e “beber” de tal flagelo. Depois partilham-se estas imagens de horror, como se as imagens de violência, morte e sofrimento, fosse o que mais importa perpetuar. E isto é o que queremos divulgar do mundo. O Fascínio Pelo Mórbido assusta-me. Dá-me conta do quão diminuído o ser humano pode ser e do quando está desligado dos valores humanos.

Comments

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  2. Andreia Morais

    A morte é algo natural, ainda que nos custe lidar com ela. E, tal como tu, consigo entender essa curiosidade em entende-la. Agora, quando as pessoas passam a ficar fascinadas com esse lado mórbido já não é saudável. Porque acho que aí já não há uma curiosidade pela morte em si, mas há, sim, um gosto qualquer em fazer prevalecer a cusquice.
    Excelente reflexão!

    r: Sim, é mesmo.
    Era necessário compreender que nenhuma crença justifica colocar em causa a integridade humana.

    Muito obrigada *.*

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