Quando não pertences

Não Pertencer

A sensação de Não Pertencer tem o incrível hábito de nos visitar de vez em quando. E que bem que assim é. Talvez seja uma forma do nosso instinto nos alertar para darmos mais atenção a determinada situação. Talvez seja uma forma de nos fazer pensar no que de facto é necessário e importante. Ou talvez seja para mostrar a verdadeira perspetiva de algo que nos está a ultrapassar.

Sabemos quase sempre que locais frequentar, onde nos enquadramos. Onde sabemos que falamos a mesma linguagem. Provavelmente não fará sentido eu apreciar música alternativa e ir assistir a uma ópera. Hipoteticamente. Ou ir a um restaurante de sushi quando não sou apreciadora. Sei que a sensação de Não Pertencer àqueles lugares irá aparecer. Portanto, sei à partida, onde me encaixo de acordo com as minhas preferências.


Não Pertencer

Sou daquelas pessoas que têm amigos de todas as cores, idades e feitios. Acho que já o tinha referido algures num post.

Tenho o hábito de não olhar a cor, roupas, tatuagens, piercings, cabelos e outras características físicas. Não costumo perguntar às pessoas, antes de as conhecer, que músicas ouvem. Aprecio todo o tipo de estilos musicais, embora tenha, naturalmente, as minhas preferências. Também não peço uma lista dos valores sociais, morais, éticos e humanos da pessoa, para comparar com a minha própria lista. (Ainda bem, pois também não tenho uma.) Ou a idade! Não pergunto (logo) a idade.

Sou um pouco mais de conhecer pessoalmente as pessoas (às vezes de forma digital, mas igualmente pessoal). Com calma, com tempo. É a forma que, tendencialmente, uso para perceber se quero conversar mais com elas… ou se quero distância! Se pretendo conhecer mais, ou se é para riscar da lista mental de pessoas que conheci! (A propósito de conhecer, leiam lá este post Como conhecer pessoas).

Se é para morrer cá dentro, morra também a esperança, que nem luto faço!

Podem discordar comigo, mas entendo que só desta maneira pessoal se conhece (ainda que por vezes superficialmente) alguém.


Uma Questão De Cultura

Já vivi noutras culturas bastante distintas da minha e sei o que é sentir Não Pertencer a determinados lugares. A alguns desses lugares o sentimento de Não Pertença foi apenas inicial. Acabei por me adaptar e sentir que fazia parte de uma outra sociedade que não apenas à que havia vivenciado até então. No entanto, já me vi em sociedades às quais não me consegui ajustar totalmente. Não correspondiam às minhas necessidades ou preferências. Sobretudo porque a pessoa que eu sou, ficava apagada naquele mundo. Nem a minha personalidade, em todo o seu esplendor, tinha hipótese de se mostrar! Lugares tristes? Não são para mim!

Sim, conheço bem a sensação de Não Pertencer. Noutros locais, noutras sociedades, em estabelecimentos. Em grupos de pessoas cujas maneiras de ser e estar, são tão opostas às minhas que acabo por não me identificar. E não falo de crenças ou personalidades. Falo acima de tudo de valores.


Os Meus 41 Anos E O Tudo Ou Nada

Ao longo da vida (digo eu sabiamente do alto do pedestal dos meus 41 anos), vamos aprimorando as nossas escolhas. Vamo-nos conhecendo melhor (sim, isto de nos conhecermos a nós próprios não acontece da noite para o dia ou vice-versa.). Vamos aprendendo quais os nossos limites. O que suportamos porque tem de ser e o que nem por decreto! Temos uma visão do mundo mais consciente, bem como da sociedade. Sabemos melhor e com mais clareza o que não queremos (mais até do que o que queremos). Mas acima de tudo, sabemos onde e com quem pertencemos.

Deixou de haver faz de conta. É tudo ou nada. E é viver um dia de cada vez, que passam demasiado rápido. É querer o tudo, todos os dias. É ser eu, sempre.

A vantagem da meia-idade é sabermos… E apesar de estarmos conscientes de que a pressa é falsa e a paciência um bem maior, sabemos que não podemos desperdiçar sequer um minuto a Não Pertencer.


Ordem Para Pertencer

Sem prejuízo das nossas horas de descanso (só para alguns terá piada); de relaxamento; de fazer o que nos apetecer e tratar de nós, fazer o que não nos desperta os sentidos é crime! Crime que não deve ser cometido sob pena de perder a vida mesmo respirando.

Conversas de treta – conversas que não acrescentam nada, sem conteúdo, vazias, desmaiadas, rompidas – não são o ideal de alguém que quer fazer parte da sua própria vida.

Todos os momentos são ordens para Pertencer.

Quando pertencemos, estamos bem, em paz connosco próprios. Estamos felizes, mesmo que não haja gargalhada. Onde nos é permitido ser nós próprios, sem medos, sem impedimentos (sejam eles de que natureza forem) de fazermos ouvir a nossa opinião. Onde as prioridades são as mesmas. Onde há recusa em perder a vida, porque nós próprios não a queremos perder. Onde os assuntos são coerentes, verdadeiros, imponentes. Onde nos identificamos…

Não Pertencer é como estar debaixo de água. Dentro de um aquário. Fora do nosso habitat.

 

Foto retirada de Pixabay.

Comments

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  1. Sara Canhoto

    Mais um texto magnífico pois claro! 🙂

    Eu não tenho (ainda) 41 anos e já me cansei do faz de conta e de aparências. Pouco me importa o que os outros pensam, pois quero pertencer onde realmente pertenço. E não faz sentido de outra maneira.

    Se perdi muita gente à custa do pertencer no sítio certo? Talvez. Mas se perdi é porque eu não pertencia a essas pessoas e vice-versa 🙂

    Um grande beijinho*

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