O Efeito Tira Nódoas da Morte

E hoje mais uma estreia! Dando continuidade ao projeto MinorKisses Convida, hoje estreia a categoria Blogger Por Um Dia. Lembram-se de há duas semanas ter falado de duas pessoas que me inspiraram a criar este projeto (aqui)? Pois bem, este artigo foi escrito pela outra pessoa, a minha querida amiga Ovelha Negra! Estou muito orgulhosa de tê-la como convidada e aposto que, depois de lerem todo o artigo, vão ficar fãs, tal como eu sou, da escrita desta Ovelha sem rebanho!

Segurem-se!

Morte

Quando o fim do ano se aproxima, nós, pessoas, temos por hábito fazer o balanço do ano velho e fazer planos e resoluções, recicladas dos anos anteriores e que invariavelmente ficarão por realizar, para o novo ano.

E há também a tradicional listinha de prendas que daremos a A,B e C. E toda a dona de casa sabe o corre-corre que é a época natalícia e o stress que é tentar ter tudo sob controle e a ginástica financeira que isso acarreta. Mas há sempre uma coisinha que escapa ao nosso controle por mais que tentemos. E essa coisinha é a Morte.

E quando isso acontece, está o caldo entornado. Foi precisamente o que “me aconteceu”. Não, não morri…obviamente, senão não teria escrito este “poste” que me foi encomendado.

 

A Morte bateu-me à porta

Sim, a Morte bateu-me à porta, salvo seja. Pronto lá estão a pensar, Oh não, um “poste” depressivo? Somebody Kill Me Now!! Nah, nada disso.

Fui presenteada com a Morte! Say whaaaaaat??? E quem foi o feliz contemplado? Quem foi, quem foi? A “minha avó”!!!

Chiça, ela fala assim de um familiar que faleceu? Mas que grande cabra insensível! Devem estar a pensar. Talvez seja e depois? Antes uma cabra às claras que cabra fingida! Mas só para vos sossegar, não era sangue do meu sangue. Era uma avó “emprestada”. Um mono que ”veio com o pacote” e que delicadamente encostei a um cantinho esquecido e deixei a ganhar pó. Porque sempre que mexia só me dava aborrecimentos. Ah, isso não é justificação para ser tão reles com a pobrezinha? Ok, aceito, mas fiquem cientes que tomei nota e mandei a mesma para o caixote do lixo.


Vacas Sagradas

Todos sabemos que para levar um casamento a bom porto é preciso muito jogo de cintura e acima de tudo há que respeitar as “Vacas Sagradas” de ambas as partes, mesmo sabendo que algumas vacas de sagradas não têm nada. Just saying!

A minha querida avó que Deus (ou outra entidade qualquer) a tenha num cantinho bem escuro na glória, era daquelas pessoas que acham que podem dizer tudo o que lhes apetece só porque sim. Era uma senhora tão amoroso que dentro da família dela tinha filhos, netos, genros, noras de primeira, de segunda e…os outros. Eu e os meus pertencemos à categoria a seguir aos outros. Logo não é de estranhar que eu nutrisse um sentimento especial pela velha.

Desde o primeiro dia, qualquer interação com ela sempre foi estranha. O tom paternalista e condescendente da senhora sempre me deixou desconfortável. Aos olhos da minha avozinha querida, eu tinha sempre um defeitozinho qualquer que ela não se coibia em apontar, alto e em bom som claro está, e nunca tinha uma palavra simpática. Tirando isso era uma joia de mulher! E foi avolumando com o passar do tempo, e com a chegada dos filhos.


Separação Por Casta

Os teus filhos têm o cabelo grencho*! Mas são bonitinhos, coitadinhos!

Coitadinhos o raio!!! Sua velha de cocó! Coitadinho é corno – cá para nós é claro, que eu não disse nada disso, mas que fiquei danada, piúrça da vida lá isso fiquei. Devo ter passado de preta (SURPRESA: Sou preta!!!) a verde de tanta raiva.

Calma Bruce*, respira Bruce. Mas por dentro eu gritava a plenos pulmões:

HULK ESMAAAAGA! HULK PISA ISTO TUDO!!! SEGURAI-ME QUE EU NÃO RESPONDO POR MIM!!!

Ainda cheguei a pensar que tudo não passava de um mal-entendido e que eu implicava com a velha. E que talvez estivesse a ficar neurótica. Apesar do contacto ser mínimo, a cada reencontro novas surpresas. Nas reuniões familiares em casa dela, comecei a aperceber-me que havia uma “separação por castas”. Mas o que fez com que a pusesse definitivamente na minha lista negra foi o facto de me ter apercebido, coisa de gaja atenta, que ela tinha uma espécie de “altar familiar” onde estavam perfilados todos os netos e bisnetos. Menos… (Guess who?)… “os morceguinhos”. Não que não tivesse enviado por intermédio da minha sogra uma foto dos pimpolhos à dita. A foto talvez não tenha chegado ao seu destino, estarão certamente a pensar. Mas se há uma coisa raramente nos atraiçoa, nós mulheres, é a memória. Entre as fotos havia uma de um sobrinho mais novo que os meus e que estava no passe-partout que eu comprei e no qual havia colocado a foto dos meus filhos.


Não Batia a Bota Com a Perdigota

Mas verdade seja dita, que eu caia aqui durinha se eu estiver a mentir, a senhora era católica devota, praticante e temente a Deus Nosso Senhor (LOL). Graças a Deus! Esse Deus a quem ela tanto adorava rezar e cada vez com mais fervor à medida que sentia que o seu comboio estava a chegar ao fim da linha. A senhora pelava-se de medo só de pensar que ia quinar, falecer, bater a bota…e por isso rezava muito. Coisa que não passou despercebida ao pároco. Durante o serviço fúnebre o padre teceu tantos elogios à defunta, à sua fé, ao seu amor por Deus e pelo próximo que tive de espreitar para dentro do caixão para confirmar se não tinha ido ao funeral errado. É que não batia a bota com a perdigota. Mas pronto saiu de cena em grande.

A morte tem dessas coisas enraçadas. É como o anúncio do CILLIT BANG: BANG! E a sujidade desaparece!


Toda família Tem a Sua Ovelha Negra

Passados uns dias fui abordada na padaria por uma senhora que se desculpava por não me ter dados sentimentos no dia do enterro, porque não sabia que eu fazia parte da família da senhora.

– Ela era tão querida! Estava sempre a falar da família. Adorava falar dos filhos e dos netos…Estava sempre a gabar os filhos/filhas/genros/noras que eram doutores e engenheiros. Não fazia ideia que você fosse da família…

-Deixa lá, não tem mal. Toda família tem a sua Ovelha negra!

Pixabay

 

Comments

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  1. KarmaIsaBitch

    Toda gente num momento ou outo da sua vida já foi racista. Consciente ou inconscientemente.
    Há aqueles que afirmam: Eu não sou racista mas…
    Há sempre um “mas”…
    Muitos não o são “mas” se o filho(a) aparecer com um(a) preto(a) à porta de casa cai o carmo e a trindade. Podem até aceitar um namoro mas casar…não.
    Felizmente há de tudo, e as mentalidades aos poucos estão a mudar. Principalmente porque a nova geração tem uma mentalidafe mais aberta.

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      Minorka

      Sem dúvida que todos já fomos ou somos preconceituosos. Há tanto para o ser… Eu por exemplo odeio pessoas estúpidas!

  2. KarmaIsaBitch

    Gostei da referência ao Bruce Banner (Hulk que por sinal é verde e não roxo, desculpa não resisti a fazer o reparo)!!
    No funeral faltou-lhe “sacar” do martelo do Thor e pregar mais uns quantos preguinhos não fosse a velha sair…LOL

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      Minorka

      Ahaha!
      Não digas nada à Ovelha Negra! Ainda se mata para ir ao encontro da velha dar-lhe umas marteladas!
      Já é verde o Hulk! Desculpa, a Ovelha Negra é daltónica. 🙂

  3. KarmaIsaBitch

    Da leitura, depreendo que das duas uma: ou a morte limpou a família da nódoa que era a senhora ou então aconteceu aquilo que todos vemos, certas pessoas passam putativos beatificados assim que morrem!
    Só a “Ovelha Negra saberá!
    Mas de uma coisa não tenho dúvidas, onde quer que a senhora esteja deve estar a pedir explicações a “alguém” (que certamente estará na sua lista negra) …uma vez que as orações caíram em saco roto!
    😀

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      Minorka

      Olá Karma!
      Se realmente houver justiça divina, a senhora nem permissão terá para pedir explicações! E isto sou eu que digo, que sou uma querida! 🙂
      Volta sempre!

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    Minorka

    Concordo plenamente!
    Mas infelizmente minha querida Andreia, pessoas que pensam assim são as que mais povoam o nosso mundo!
    Gosto muito da atitude da Ovelha Negra. Felizmente é capaz de rir e fazer rir com situações destas, mas por de trás da brincadeira há uma grande reflexão a fazer…

  5. Andreia Morais

    Um texto que espelha bem as incoerências do ser humano. Tão devota, mas depois tinha atitude destas. Qual é a lógica?
    Faz-me muita confusão perceber que as pessoas conseguem ser mesquinhas ao ponto de haver tantas separações no trato. O meu avó materno teve um relacionamento anterior, do qual resultou um filho. Quando ele e a minha avô começaram a namorar, ela nunca fez essa distinção. Tratou o meu tio como se fosse filho dela. E com os filhos dele a mesma coisa. Eram tão netos dela como eu. E, para mim, é isto que tem lógica. É isto que é ser família, independentemente de ser ou não direta.

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