Como investir na nossa história quando não temos tempo sequer para a própria vida?

Tradições e Costumes | ACMA

Falo-vos de Tradições e Costumes precisamente no dia em que se comemora o Carnaval! Vestir outras personagens, as fatiotas, os acessórios, enfim, uma festa! Adoro! (Não estou a falar das mini indumentárias copiadas aos brasileiros. Quanto a isso considero uma verdadeira descaracterização do “nosso” Carnaval e desconhecimento das características das estações do ano do país em que vivemos. Estranho, muito estranho…) E como no Carnaval ninguém leva a mal, é quando a população se permite ser sarcástica. Dão-se umas facadas no (des)governo ou em instituições cujas prevaricações têm gerado alguma polémica. Os desfiles e as personagens estão repletos de “recadinhos” interessantes.


Tradições e Costumes – a folia dos antigamentes

Nem sempre foi assim. O Carnaval, tal como outras Tradições e Costumes, sofreu e sofre alterações ao longo dos anos. No tempo em que os meus avós eram vivos, comemorava-se o Entrudo.  As pessoas desfilavam pelas ruas, totalmente tapadas. Não falavam, apenas davam uns gritos característicos da folia do Entrudo. E assim andavam pelas ruas a pregar partidas uns aos outros sem nunca revelarem a sua identidade.


Tradições e Costumes sem influências económicas

A economia em nada influenciava estas animações. Havia simplicidade e integridade nestas brincadeiras e em todas as Tradições e Costumes. Os jogos tradicionais, hoje pouco conhecidos, eram divertidos, ingénuos e sobretudo sem gastos económicos. Saltar à fogueira, pela altura dos Santos Populares. A “Descasca” do milho, outra tradição antiga, baseava-se sobretudo na entreajuda, solidariedade e partilha. Os aldeãos ajudavam-se uns aos outros a apanhar o milho e, pela noite dentro, com cantigas e jogos, procediam à sua descasca.

Estas Tradições e Costumes estavam assentes em valores de espírito de grupo, de família, de vizinhança, de ajuda mútua, de amizade, amor e paz. Valores cruciais para uma sociedade coesa, empática, solidária. Um tempo em que se tomava conta uns dos outros e das coisas uns dos outros.


Tradições e Costumes uma manipulação capitalista

Hoje temos outras Tradições e Costumes. Quase todas elas bem definidas pela sociedade capitalista em que vivemos. Impingidas por uma sociedade de consumo. Não preocupadas ou direciondas para um relacionamento interpessoal positivo. A interação entre os membros da sociedade não faz parte do objetivo maior destas Tradições e Costumes. São, portanto, uma manipulação capitalista. Trazem-se tradições (consumistas) de outros países, inventam-se novas. Mas o importante mesmo é mover a economia. O desenvolver do civismo, dos interesses públicos, dos valores da sociedade, não são contemplados nestas “novas” Tradições e Costumes.


O que somos nós sem história?

Poucas são, hoje, as Tradições e Costumes que nos mostrem quem fomos enquanto povo. Que nos relembre a nossa história, que respeite o nosso passado comum, que nos una enquanto sociedade. O que somos nós sem história? O que é de um país que não promove o que de melhor tem? Que não promove relações sociais que são basicamente o necessário para o desenvolvimento pessoal e social de cada um de nós? Um relacionamento interpessoal positivo que contribua para uma sociedade mais saudável, empática, assertiva, cordial e com sentido de ética.

Será todo este assunto uma questão geracional e, por isso, ultrapassada? Estará perdida a sociedade que investia em Tradições e Costumes e na evolução humana? As nossas gerações de hoje, perdidas na sociedade de 24 horas imposta pelo consumismo desenfreado e inconsequente, não são capazes de refazer a história. Como investir na nossa história quando não temos tempo sequer para a própria vida?

Sociedade capitalista
Photo by Sharon McCutcheon on Unsplash

Sobre o projeto A Cultura Mora Aqui

Criado pela Ju, do blog Cor Sem Fim, o projeto A Cultura Mora Aqui – ou ACMA, para abreviar – tenciona, tal como tenho visndo a referir nos meses anteriores, trazer a cultura de volta à internet com temas mensais ou bimestrais. Para participarem, só têm de enviar um e-mail com os vossos dados para acma.cultura@gmail.com – aproveito para repetir que não vamos falar sobre outfits, maquilhagem, moda, etc, e que qualquer um de vós pode participar, não sendo obrigatório fazê-lo todos os meses. Para não perderem nenhum post já podem seguir a página do ACMA no facebook e a Revista.

Comments

  1. Caroline

    Olá!
    É muito bacana ler um texto assim, que faz a gente para e pensar em como as coisas não só as tradições e costumes mudaram ao longo do tempo e acredito que assim vai se sucedendo com o passar dos anos as pessoas também vão mudando e vai se reinventando as tradições e costumes.

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  2. Remata

    Olá!
    Amei a matéria! Não conhecia esse passado (não muito distante) do nosso Carnaval e achei incrível perceber a mudança que o sistema trouxe para o evento.
    Acredito que várias celebrações passaram por esta transformação e têm reverberações de todos os tipos, tanto sociais, quanto culturais, econômicas e políticas. Há algum tempo essas esferas eram vistas de modo apartado e, agora, como tudo isso se revela verdadeiramente intrínseco, acho difícil que não reverberem uns nos outros. O que não deixa de ter resultados positivos e negativos, é claro.
    Bem legal o projeto, gostei de conhecer!
    xoxo

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  3. Daniela Oliveira

    Gostei muito da tua abordagem ao tema, mas não tenho uma posição tão pessimista. Acho que em muitos locais do país, sobretudo no interior, as tradições ainda permanecem fiéis à sua origem, se bem que com alterações, e ainda bem, porque a cultura é, sobretudo, reinvenção. É claro que não nego o peso da sociedade capitalista na redefinição destas tradições, e seria ingénua se o fizesse, mas também não acho que estejamos totalmente descaracterizados, e acho que até tem havido o esforço de valorizar alguns dos rituais que pautam a nossa cultura: exemplo disso é o facto de termos turistas em Traz-os-Montes para ver os caretos… Acho que temos de ter alguma fé naquilo que somos capazes, enquanto geração com acesso a todo o tipo de informação e ferramentas, temos tudo para preservar o que temos de melhor e que faz de nós o que somos enquanto país! 🙂

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      Minorka

      Olá Daniela e obrigada pelo teu comentário. Não vejo que esteja a ser pessimista, se calhar por estar envolvida em reinvenções da tradição. Queiramos ou não, movem-se milhares de euros, que deixa de queixo caído mesmo quem está dentro das atividades.
      Em todo o caso, considero que a perda humana é bem mais considerável do que a parte capitalista das efemérides, das tradições e costumes.
      Tenho muito orgulho nas nossas tradições, que são, quanto a mim, mais originais do que as reinvenções. Beijinhos!

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