Quantas vidas consegues viver na Rede?

Voltamos ao projeto MinorKisses Convida com uma convidada muito especial. Este artigo deixa-me particularmente feliz, por ter sido escrito por alguém com quem me identifico muito! Vão perceber porque o digo mal comecem a ler! Depois digam-me se tenho razão ou não.

Andreia, a vida apresentou-nos em 2003 e, mesmo sem percebermos, reencontrámo-nos recentemente no Twitter! Uma surpresa da vida que não esquecerei!

Deixo-vos com as palavras de Andreia, um alimento para mentes ávidas.


Apaixonada por letras, palavras e pessoas, escrever é o seu verbo favorito e a semântica a sua melhor amiga. Gosta de rir e observar (atentamente) tudo à sua volta. É ambidestra, mas foi desassisada aos 20 e nunca mais foi a mesma. Franze a testa quando algo não lhe agrada e não sabe disfarçar a sua opinião. Estudou para ser psicóloga, foi professora e encontrou-se como Business Development Writer. Na área jurídica. Isso. Está a escrever, em simultâneo com a vida, uma tese (procrastinada) sobre o impacto dos social media na forma como nos relacionamos uns com os outros. Se fosse uma personagem seria a da hamartia. É loira e espera que isso não vos induza (apenas) a um Corpus delicti.


Viver na Rede, ou no Vazio que ocupa um espaço imenso

Vivemos numa época paradoxal! E por paradoxal, aqui, entendam apenas o fato de ser, de facto, incrível que nunca, como agora, nos foi tão fácil aproximarmo-nos dos outros, mas preferirmos teimar em viver na rede.

Tentamos, a cada dia, viver (somente) o presente. Estamos disponíveis para captar tudo à nossa volta, com sede de saber de tudo e de todos, preferencialmente antes dos outros, mas sem esperar ou apreciar nada e cada vez mais incapazes de parar para refletir e pensar, criticamente, sobre as questões fulcrais da atualidade.

Recorremos às redes sociais para saber do mundo e dos outros, tentando, simultaneamente, participar da melhor forma que conseguimos… isso, ou passar pelo novo receio da inexistência virtual que também virou trend: se não estás numa rede social, não existes…

Mas na verdade nada disto existe porque a Rede é apenas um vazio que nos ocupa um espaço imenso, mas na vida (real) …


Viver na Rede, ou num lugar imaginário longe de tudo o que existe

Social Media Addiction – Peter Thomas Ryan

Nunca foi tão fácil, como agora, viver os dias em modo scroll up and down, gostar e desgostar de alguém com base numa eventual (pseudo)foto de perfil filtrada (ou de outra pessoa) e em meia dúzia de palavras que, tantas vezes, também pertencem a outros.

E acreditem que não tenho nada contra esta necessidade de nos sentirmos parte de alguma coisa, o meu único dilema é estarmos completamente dependentes deste lugar imaginário que criamos e que, incontrolavelmente, vamos alimentando e ficando, cada vez mais, viciados neste paralelismo surreal.

E como acontece com qualquer vício, quanto mais profunda é a nossa dependência maior é a nossa hipocrisia.

Por isso passamos pela rua de telemóvel na mão e cabeça tão inclinada que nem somos capazes de reparar no sem-abrigo que se encontra lá a viver. Preferimos viver naquele mundo (pseudo)perfeito, que nos afasta de todo o mal que abala a sociedade atual e que nos obriga a ser (tantas vezes) quem não somos (o que nem importa porque não interessa ser ou existir, mas apenas estar).

Pasmem-se, fazemos o mesmo no mundo virtual!


Quantas vezes nos questionamos (verdadeiramente) sobre o outro na Rede?

Quase nunca. São poucos os que se importam em saber mais sobre o outro. E não estou a referir-me à curiosidade geral. Estou a falar em conhecer a pessoa, olhá-la nos olhos ocupar um mesmo espaço temporal em simultâneo num mesmo lugar sem ser no vazio.

Porque é que isto acontece?

Porque há demasiada persona alternativa numa única app, imagine-se então nas várias Redes existentes… temos tantas opções nas pontas dos dedos que a tecnologia tornou o interesse genuíno no outro quase que uma coisa do passado.

Os sentimentos que se geram são tão rápidos que nunca mudam de nível, há tanta variedade de persona disponível que se rejeitam rapidamente uns para poder passar à opção seguinte.

Porque é que é tão fácil?

Porque se consegue ter a mesma abordagem com uma variedade de público bastante abrangente, sendo apenas necessário estabelecer uma estratégia, delinear um plano e desenvolver e adaptar o conteúdo à capacidade de quem pública e de quem lê.

É muito fácil dizer a uma pessoa que ela é espetacular e maravilhosa se eu nunca tive o prazer de conversar com ela, sobre um tema estruturante, nem que fossem 5 minutos, para perceber se valeria a pena dar continuidade à conversa, por mais interessante que a profile pic me possa parecer…

Por isso é preciso a tal estratégia… aquela que vicia o outro e o faz voltar, a cada dia, para seguir as nossas vidas… e os corações foram introduzidos na Rede com esse único objetivo. Despertar o interesse no outro em voltar para receber outro estimulo.

Por isso se torna evidente que se queremos corações, temos de dar corações… gostar dos outros para que nos queiram seguir e gostem de nós…

Perdeu-se o interesse pelo fundamental do ser humano: as pessoas estão aqui (no mundo) para interagir!

E por interagir reconheçam aquele fenómeno espetacular que permite a um certo número de indivíduos constituir-se em grupo e que consiste no facto de que o comportamento de cada indivíduo se possa tornar estimulante para o outro, através da troca de experiências… estão a sentir o cheiro da amizade? Pois é, assim costumava ser Viver…


O que procuramos na Rede?

Phone is were the heart is – Omar illustrates

A fuga da realidade, dos dias cinzentos, tornou-se rotina e podemos muito bem passar o dia despenteados (até das ideias) e de pijama, que tanto faz, desde que tenhamos uma boa foto de perfil e alguma piada, e consigamos teclar uns caracteres e imagens, ou versos e frases feitas, alguém acabará por nos achar graça fazendo-nos sentir seres queridos.

E ainda que vos pareça básico este procurar que gostem de nós é a base fundamental da Rede.

Porque nos ajuda no preenchimento de necessidades básicas como o sentimento de pertença, amor e afeição. Afinal o ser humano não é assim tão complexo.

Mas a volatilidade dos relacionamentos que se extraem das redes sociais é tal, que apesar de tudo parecer perfeito, à imagem daquilo que (tantas vezes) foi sonhado, mas ninguém pretende enfrentar, pela dificuldade que existe no lidar com a realidade dos “cabelos despenteados”, sobretudo aqueles levados pela brisa do pensamento vazio e da imagem já sem filtros, que se prefere ir levando os dias com o que achamos “importante” enfiado no bolso ou na palma da mão…

Mas nada disso é real…

Real é alguém que não se esconde numa app 24h/7.

O melhor mesmo é vivermos completamente ocos por dentro porque isto de sentir deixa marcas que não queremos experimentar e há tanta gente disponível à distancia de um simples clique, que já nem é preciso sentir…


Os laços e os nós da Rede

Social Media Addiction – John Holcroft

O ser humano está, indubitavelmente, cada vez mais dependente da tecnologia e mais fechado sobre si mesmo, desenvolvendo (de forma alucinante) uma preocupante falta de capacidade para se relacionar com o outro, devido (sobretudo) a esta idealização de persona fomentada pela Rede.

E por mais que nos possa custar assumir esta realidade, assistimos, cada vez mais, a pessoas que preferem estar atrás de um dispositivo do que experimentar o olhar olhos nos olhos o outro, ouvir a sua voz e conhecer as suas expressões…

Refletir esta tendência da sociedade (e dificuldade emergente) do ser humano em estabelecer laços (vínculos) com quem quer que seja, preferindo esconder a sua inaptidão social atrás dos nós (enredos) de tecnologias frívolas (fúteis e volúveis), passou a ser objetivo de estudo.

Numa altura em que começamos a questionar-nos, seriamente, sobre o tipo de indivíduos em que nos estamos a tornar, face a toda esta exposição e dependência (excessivas), torna-se extremamente pertinente analisarmos a forma como cada um de nós participa desta enorme Rede.

Para isso basta fazermos uma reflexão simples:

Usas a Rede para te relacionar com pessoas que não incluirias na tua rede pessoal?

Com que propósito?

Um dia vais lembrar-te de tudo o que poderias ter vivido e escolheste experienciar apenas de forma (orto) gráfica.

Hoje também vai ser o dia!

Comments

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  1. KarmaIsaBitch

    Nas redes sociais impera o cinismo e a falsidade. Pessoas que precisam desesperadamente de atenção, de Likes e coraçõezinhos para massajarem os seus egozinhos. Ou então aproveitam o anonimato dos seus perfis para destilarem o ódio sobre tudo e todos. Como se uns e outros tivessem culpa das suas vidas miseráveis mas que eles transvestem de perfeitas.
    Mas são tão sensíveis quando se lhes dão a provar do próprio veneno.

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      1. KarmaIsaBitch

        A sra Minorka é “rápida no gatilho” atira em tido o que se mexe…mas recomendo karma, muita karma nessa hora…ehehehehe

        1. KarmaIsaBitch

          Ah, e eu não sou nada fofa. Não sou de massajar egos. Não sou das que vê uma foto de gente feia e vai com aquele falso “LINDA”!!! QUE GIRA!!
          Eu passo à frente, não vá ter pesadelos. Não que a pessoa tenha culpa de não se vestir bem de cara, mas também não vou enganar a criatura…Sou mita coisa, mas falsa não.

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            Minorka

            Então fazes parte do meu mundo, da Andreia e de outras (poucas) pessoas!
            Cada vez mais vejo um post da Karma…. Já o consigo cheirar… Encaixará lindamente!

          2. KarmaIsaBitch

            A sra. Minorka já vi que também que quando “morde não larga”!! Ahahahaha
            Pronto, o que tiver que ser…será.
            Como dizia uma certa personagem da tv: -Vamos pegar os cornos pelo boi!!!
            😀

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  2. Claudia - Mulher XL

    A Rede é um veneno. Embora essencial e parte dos dias de hoje (um absurdo que se tornou aceitável, como falavas no outro post 😛 ), há que ter bom senso e não nos deixarmos consumir. Eu deixava-me consumir pelo Facebook. Percebi que perdia imenso tempo e agora quase nem vou lá. Nunca tive twitter e o instagram… é nos tempos mortos!
    E ganhei tão mais vida desde que passei menos tempo a ver a vida dos outros!

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  3. Andreia Morais

    É incrível o quanto a nossa presença nas redes pode revelar tanto sobre nós! E é triste quando chegamos ao ponto de acharmos que temos que ser mais do que aquilo que somos, caso contrário não será apelativo.
    Excelente colaboração!

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